domingo, 4 de março de 2012

A Máquina de Escrever e o Computador

São José da Laje, AL

Churrascaria Boa Viagem, BR 104 – 25 de Fevereiro de 2012.

Por volta dos 12 anos de idade ainda era costume na minha cidade um coisa que não pertence mais ao ideal de formação profissional da juventude atual. Tratava-se de um momento sonhado por muitos e realizados por poucos, somente aqueles mais abastados financeiramente tinham o desejo realizado de frequentar as aulas do curso de datilografia da Escola Santa Quitéria, mantido por Dona Quiterinha na rua Prefeito Antonio Ferreira e que ocupava toda a sala da sua casa.

Nossa como eram concorridas aquelas aulas. As vezes faltavam vagas em todos os horários e alguns postulantes ficavam a espreita esperando alguma desistência.

O que fascinava tanto na máquina de escrever?

A relação dela com as pessoas, eu acredito.

Onde haviam máquinas de escrever? Nas grandes e médias empresas, em algumas repartições públicas, em poucas escolas públicas e o pior: em nenhuma desses lugares uma criança poderia mexer numa máquina daquelas!

A relação entre o homem e a máquina de escrever era quase como o desposamento (ato de tornar alguém sua esposa). Esperava-se uma certa idade para uma pessoa pudesse ter a oportunidade de praticar e com isso adquirir habilidade necessária no uso da máquina de escrever.

As empresas só deixavam alguém tocá-las quando na contratação houvesse o diploma que certificasse a pessoa naquilo.

Na Escola Santa Quitéria as aulas eram repetitivas mas eram essenciais para adquirir a habilidade com o teclado uma vez que se tinha que aprender controlar a força e ao mesmo tempo a sensibilidade no uso das teclas, pois algumas máquinas eram “pesadas” e outras bem “leves”.

maquina de escrever

As minhas aulas não foram ministradas pela Dona Quiterinha e sim por sua filha Jane Rose a qual até hoje é excelente datilográfa e adaptou-se tão bem aos tempos modernos do computador pessoal. É muito procurada por todos na cidade com necessidade de “digitação” dos trabalhos acadêmicos. Pouquíssimas pessoas têm a habilidade da Jane Rose com o teclado, eu não conheço ninguém só disse pouquíssimas para não ser injusto com alguns dedográfos que existem por aqui.

O fato é que as pessoas desejavam adquirir uma máquina de escrever como se desejava um carro, uma moto etc. Atualmente a maioria dos profissionais envolvidos com atividades que exijam escrita e leitura possuem ou podem adquirir um computador, a máquina não. Era cara!

Mas eu consegui comprar uma!

Praxis

Comprei-a em 12 vezes com juros altíssimos nas Lojas Arapuã, ficou quase uns R$ 600,00 lá pelos idos de 98 ou 99. Mas a minha não era como as antigas Remington, era moderna, elegante, eletrônica, era uma Olivetti Praxis 200! Naquela época um computador custava uns R$ 1800,00 e precisa de uns R$ 400,00 para comprar uma impressora HP Deskjet. Era bem melhor ter uma máquina de escrever...

Enquanto a fita de uma Remington ou similar, totalmente mecânica custava em média R$ 0,20 e poderia ser comprada em qualquer papelaria o instrumento que fazia a máquina eletrônica escrever custava uns R$ 6,00 e só era encontrada em algumas lojas em Maceió.

Não adiantava a máquina de escrever estava com os dias contados mesmo. As médias empresas, os professores do ensino fundamental e médio já poderiam adquirir seus Pentium III de 100 Mhz com 32 MB de RAM e HD's de 100 MB e isso não tinha volta. Hoje como Administrador de Empresas vejo que a Olivetti sofreu do que chamamos de miopia de marketing, focou no produto melhorando e modernizando as máquinas de escrever sem levar em consideração que as pessoas desejavam adquirir computadores, teria sido melhor associar-se a uma indústria e lançar PC's com sua marca... Será? Isto é pra outra postagem mas o erro da Olivetti foi por aí.

O fato é que as relações das pessoas, mais precisamente dos jovens com a máquina de escrever era bem diferente do que se estabelece hoje com os computadores.

Em casa tenho 3 pcs, um desktop, um notebook e um netbook e meu filho de quase 9 anos tem acesso a todos, logicamente com a moderação necessária, ele não passa dias ou horas no PC. Ele escreve trabalhos, pesquisa na internet. Não tem Orkut nem Facebook a verdade é que essas redes sociais deveria lançar uma versão infantil com acesso mais voltado para esse público. Por enquanto lá em casa nada de rede social virtual para minhas crianças! Também não os estimulo não vivemos acessando Orkut e Facebook frequentemente, só quando precisamos ver fotos dos primos distantes, fazemos isso juntos!

note samsung

O fato é que a tecnologia da máquina de escrever era distante às pessoas enquanto o computador pode ser utilizado por todos! Embora mais complexo por depender de partes física e lógica e ainda que mais frágil é possível toda criança desenvolver alguma atividade lúdica no PC enquanto que na máquina de escrever somente os bem alfabetizados e portadores de certificado!

Quase não existiam cursos de datilografia a distância, somente os do Instituto Universal Brasileiro mas você tinha que ter a tal máquina. Com o PC não, você compra um cd rom na banca de revista e pode usar uma lan house!

Um comentário:

DASLAN MELO LIMA disse...

"A.S.D.F.G.", eis a primeira lição do Manual de Datilografia.
Fiz um curso na Escola Reminghton Santo Antônio, cuja diretora-professora era D. Mariete, que marcou época em São José da Laje.

Bela crônica, Antonio Neto, recordações mágicas de um tempo que se foi, para sempre se foi.

Um abraço, direto da nublada manhã pernambucana do primeiro domingo de maio/2012.

Daslan Melo Lima
Timbaúba-PE